Álcool, drogas e… exercícios?

por Allison Brager, neurocientista e atleta de CrossFit para o blog Fitness Cult Chronicles e idealizadora do livro MeatHead: Unraveling The Athletic Brain.

“Eu sou uma viciada em dopamina. Quer uma prova? Eu tenho um pingente escrito dopamina. Não se impressionou? Eu tenho uma tatuagem da fórmula química da dopamina no meu braço.
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A dopamina é produzida no cérebro para regular nossas dores e prazeres. Isso mesmo, mesmo sendo opostos, nosso cérebro possui certa dificuldade em avaliar e decidir qual é qual. Não acredita? Então, da próxima vez que você estiver voluntariamente sofrendo para fazer uma Fran, relembre deste artigo. Você também não saberá definir a sensação. Dor ou prazer?

Se voltarmos ao básico – comida, sexo, exercícios e até as drogas -, o cérebro reage de forma similar. Quando um ser humano ou qualquer outro animal se confronta com umas dessas situações, o cérebro bombeia uma quantidade considerável de dopamina. A quantidade de dopamina liberada é determinada pela força, frequência e duração do que você está sentindo naquele instante. Quanto maior a sensação, maior a liberação.

Cervejas ou burpees?

Eu estudei os efeitos das drogas de abuso, assim como o álcool e a cocaína, em institutos de sono e de diagnóstico cerebrais para o trabalho de conclusão da minha graduação e ainda sou fascinada pelo assunto. No campo das drogas, gostamos de falar de “substituição hedônica”, ou seja, a ideia de que uma recompensa pode ser facilmente substituída por outra. Neste caso, praticar atividades físicas pode ser um ótimo substituto.

Diversos estudos científicos sugerem que exercícios para emagrecer podem ajudar a combater o uso de drogas e recaídas em jovens e adultos. Isso é fantástico, pois, como uma neurocientista, sou absolutamente contra o uso de qualquer tipo de medicamento para tratar a dependência química. Drogas farmacêuticas reconectam o cérebro assim como as drogas pesadas. Basicamente, não é preciso ser um PH.D. para saber que “poxa, drogas fazem mal. Fazem muito mal,” como diz o Sr. Mackey.

A vida secreta de hamsters alcoólatras

Por falar em substituição hedônica, neurocientistas geralmente utilizam cobaias não-humanas viciadas em drogas para poder caracterizar como e por que os exercícios podem servir como uma porta de entrada das drogas no cérebro.

E qual seria a melhor cobaia para os estudos? Que animal consegue beber e, ainda assim, percorrer cerca de 8 a 9 milhas voluntariamente todos os dias, assim como documentado por Christopher McDougall’s em seu livro Born to Run? O hamster.

Calma. O hamster?

Pois é, os hamsters podem beber 50 vezes mais álcool que um humano adulto (baseado em seu peso corporal) sem prejudicar suas vidas. Eles geralmente comem frutas fermentadas em seu habitat natural. Estes pequenos e bêbados roedores enterram frutas que caem dos cactos no deserto, deixam-nas fermentar e depois desenterram-as para consumo.

Sabendo desse estilo de vida peculiar desses animais, eu e meus colegas de classe decidimos analisar o que ocorreria se déssemos aos hamsters álcool ou livre acesso à sua rodinha de correr. Os resultados foram claríssimos: ao deixá-los correr em suas rodinhas, todas as cobaias preferiram água em vez de álcool. Quando tiramos a rodinha, eles preferiram o álcool até ficarem consideravelmente desorientados.

Isso acontece tanto com hamsters jovens quanto adultos. Mas qual seria a causa responsável por este aparente comportamento esquizofrênico? Pois é, você acertou: a dopamina! Apesar de não investigarmos isso diretamente em nosso estudo, já sabemos que tanto o álcool quanto o exercício pode causar a liberação da dopamina em nosso cérebro. Obviamente, o exercício é a melhor escolha para liberar “o monstro” dentro de você. Seu abdômen irá te agradecer.

Exercícios como uma porta de entrada?

Drugs,+Alcohol+and+Exercise 3 Atletas de alto nível são “aberrações” tanto física quanto mentalmente. Fisicamente, muitos são dotados com ótimos genes e fisiologias, tão bem analisados no livro “O Gene dos Esportes”, de David Epstein’s. Atletas de elite estão sempre tentando se puxar para o próximo nível para ganhar vantagem sobre seus oponentes. Alguns destes atletas recorrem à drogas para melhorar sua performance quando métodos naturais não produzem os resultados esperados.

O que muitos não percebem é que muitos atletas utilizam tais métodos simplesmente porque eles são preguiçosos e querem buscar um “atalho” em vez de treinar por mais tempo e mais forte. Apesar de não ser ético, como uma neurocientista, eu entendo.

Para estes atletas de alto nível, as doses de dopamina precisam ser mais fortes e duráveis para ter o mesmo efeito. Isso quer dizer que um atleta irá se recusar a descansar, irá treinar lesionado, irá treinar além do limite e, aos poucos, se viciar neste ciclo de destruição física e mental. No campo das drogas aditivas, nos referimos a este estado como “hiperhedonia”. Essa é a razão pela qual a depressão e as doenças mentais são altamente recorrentes após atletas profissionais se aposentarem de seus esportes independentemente de sofrerem graves lesões ou não. Digo isso pois eu mesma já ignorei alguns problemas como tenditine em meu ombro e quadris para treinar mais regular e intensamente. O que eu quero dizer é que você precisa ter cuidado. Contudo, se você está com uma lesão séria e não pode treinar por um tempo, adapte-se a outra modalidade ou procure por algo menos intenso.

Coisa boa em excesso?

Então exercícios podem ser feitos para substituir as doses de dopamina liberadas pelas drogas e álcool mas também não podemos abusar deles? Isso não pode ser mais simples? Como saberemos quando o demais realmente é demais? Provavelmente da mesma forma que sabemos que o álcool e as drogas estão se tornando um problema. Quando os exercícios estão afetando negativamente sua vida profissional e as relações pessoais, existe uma grande chance de você estar exagerando. Se você está esquecendo-se do aniversário da sua filha para um WOD rápido no parque, está na hora de reavaliar suas prioridades. Apenas tenha certeza que seus exercícios são apenas uma parte de um estilo de vida saudável e não uma obsessão doentia.”

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Professional: Academic Researcher with a focus on neurobiology @ Morehouse School of Medicine and professor at Morehouse College
PHD Info: Kent State with a focus on neurobiology (PHD from Department of Biological Sciences)
CrossFit Games Experience: 2015 Regionals – Team, 2014 Regionals Athlete, 2013 CrossFit Games – Team, 2012 Regionals Athlete
Collegiate Athletic Background: Brown University Track & Field, 4 year varsity letterman, specialist in pole vault and hurdles

Facebook: Meathead: Unraveling The Athletic Brain
Allison’s Blog: www.dormivigilia.com
Instagram and Twitter: @beastlyvaulter

Revista MyBOX

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