Christmas Abbott nunca foge de um desafio

por Lindsay Berra

A voz na cabeça de Christmas Abbott grita: “3-2-1, Já!”

Não, Christmas Abbott não está começando um treino de CrossFit. Nada disso. A contagem regressiva mental a ajuda a marcar o instante de pular a barreira que delimita o box e permite que ela esteja a postos no exato milissegundo em que o carro da NASCAR, de 1.587 quilos, desliza até a marcação.

Antes mesmo de o carro parar, Abbot fixa o olhar no pneu dianteiro direito — especificamente, na porca pintada de amarelo à sua direita da roda. Ela se ajoelha diante do pneu com a pistola de ar comprimido e desparafusa primeiro esta porca, depois as outras quatro em sequência e no sentido horário. Elas se desprendem como se fossem pipocas e Abbott, que tem apenas 1,60m de altura e 52 quilos, arranca o pneu velho de 29 quilos do carro e abre espaço para o pneu novo. Seu parceiro na dianteira do carro, um trocador de pneus como ela, enfia o pneu novo no lugar e Abbott parafusa as cinco roscas com a pistola de ar comprimido. Ela então contorna correndo a frente do carro, com o rabo de cavalo voando, e mergulha ao lado do pneu dianteiro esquerdo, repetindo novamente o processo.

Remover ou apertar cinco porcas demora 1,5 segundo, e o processo todo é feito em menos de 15 segundos; 13 se a equipe do box for boa. Vencedores e perdedores na NASCAR podem ser definidos por uma fração de segundo, portanto, velocidade é fundamental, razão pela qual Abbott passou a maior parte da última primavera e do último verão treinando para diminuir seus tempos. “Tudo é muito rápido e tenso, apesar de muito preciso”, diz Abbott. “Se eu pular uma porca, podemos perder a corrida”.

150715_ImagemInterna_ChristmasAbbott1

Essa é a vida de Abbot como trocadora de pneus dianteiros. E tudo começou por ela ser uma praticante de CrossFit desde os poeirentos acampamentos militares do Iraque, onde ela nunca teria ido se a sua vida não tivesse mudado completamente no dia 17 de novembro de 1996.

Abbott era uma criança feliz. Cresceu em Lynchburg, Virgínia, com seus pais, Barbara Nichols e Ed Abbott, sua irmã mais velha Kole e o irmão mais novo, Chris. Nichols batizou sua filha de Christmas Joye porque ela nasceu no dia 20 de dezembro de 1981 e foi, de fato, o melhor presente de Natal que sua mãe podia receber.

Abbott praticou beisebol durante alguns anos — não porque estava determinada a enfrentar os meninos, mas sim porque sempre foi franzina, e como suas mãos eram pequenas, ela tinha dificuldade para segurar a bola de softball, que é maior. No ensino médio, ela encarnou o tipo de cheerleader entusiasmada que se divide entre agitar a torcida com a ajuda de pompons e dar saltos mortais para trás ao longo de toda extensão do campo de futebol. “Eu dava muitas estrelas”, ela conta.
Mas aos 13 anos seu mundo virou de cabeça para baixo.

Ela estava voltando de uma festa com a irmã e uma amiga quando o carro em que elas estavam capotou sete vezes. Kole foi cuspida do carro e entrou em coma. No que foi considerado outro milagre para os Abbott, Kole acordou do coma num feriado de Thanksgiving. Mas Christmas ficou muito abalada. “Quando você pega seu herói e o transforma numa pessoa comum, isso mexe com você”, ela diz. “Quase perdi minha irmã e os médicos não entendiam como nós tínhamos escapado”. Kole teve que reaprender a andar e perdeu a memória dos dois meses depois do acidente. Christmas, que escapou quase que sem um arranhão, se lembra do carro capotando, completamente sem controle. Ela ficou da mesma forma.

Os pais de Christmas sempre foram religiosos e iam à igreja aos domingos, mas Christmas parou de ir à missa e começou a fumar, a beber e a sair escondido. Suas notas pioraram e ela ficou sem rumo durante quase nove anos. À medida que suas amigas amadureciam e seguiam em frente com suas vidas, Abbott lutava para encontrar um caminho. “Fiquei zangada e deprimida depois do acidente”, ela conta. “E isso me deixou cada vez mais perdida”. Foi preciso chegar ao fundo do poço para que ela pudesse se recuperar.

Em janeiro de 2004, Christmas, então com 22 anos, estava num ônibus blindado saindo do aeroporto de Bagdá para a Zona Verde, a área da cidade mantida pelas forças internacionais após a invasão da coalisão em 2003. Ela tinha ido para o Iraque trabalhar, junto com a mãe, como funcionária terceirizada para os militares. Sua chegada foi como um despertar sobressaltado. “Eles encontraram uma bomba caseira na estrada, então tivemos que parar e aguardar durante algumas horas”, explica Abbott. “Eu não tinha noção de onde estava me metendo, tanto que perguntei, ‘Não dá para simplesmente desviar da bomba?’”

Abbott logo foi apresentada aos sons e ao estresse da guerra: o zumbido dos foguetes, o baque surdo dos mísseis lançados, a explosão dos carros-bomba. Todo dia havia algum tiroteio fora do acampamento, mas ela se esforçava para cumprir com suas obrigações. Ela começou como funcionária da lavanderia, recolhendo a roupa suja e a devolvendo limpa. Depois, ela se tornou uma especialista em operações, coordenando todas as necessidades do acampamento e trabalhando com os militares e com a equipe de segurança para organizar os comboios para arranjar comida e suprimentos. Nesse meio tempo, ela aprendeu a atirar. Com vários tipos de armas. “Na minha segunda estada no Iraque, era preciso estar habilitada para usar cinco armas diferentes, o que significa que você tem que ser capaz de usá-las com segurança e competência”, diz ela. “Eu tinha que carregar uma arma e recebi uma Glock 9mm”.

150715_ImagemInterna_ChristmasAbbott2

No Iraque, em 2006, Abbott foi apresentada à outra coisa que ela nunca tinha feito antes: o CrossFit. Na época em que ela foi para o exterior, ela já tinha parado de fumar e começado a se exercitar. Um dia, na academia de ginástica do acampamento, um fuzileiro naval lhe mostrou o famoso vídeo online “Nasty Girls”, de Nicole Carroll, Annie Sakamoto e Eva Twardokens, com três exaustivas séries de 50 agachamentos, 7 subidas na argola e 10 tempos de suspensão em pé. Abbott foi fisgada. “Vi garotas do meu tamanho fazendo coisas que eu não imaginava que garotas do meu tamanho fossem capazes de fazer, ou que pudessem fazer”, ela conta. “Não tinha entendido bem o que tinha acabado de ver, mas sabia que queria fazer aquilo”.

Abbott começou a treinar CrossFit ao ar livre com os soldados de seu acampamento, usando todo tipo de material disponível: caixas de munição, sacos de areia e blocos de cimento. “O CrossFit me transformou numa atleta”, ela conta. “E preencheu um buraco no meu coração”.

Foi por volta dessa época que a mãe de Abbott diz que começou a perceber que o “talento” da filha estava desabrochando. O CrossFit rapidamente se tornou a vida de Abbott. Depois de voltar do Iraque no início de 2008, ela conseguiu um emprego num seminário de CrossFit, arranjou uma filhote de buldogue inglês e a batizou de “Fran” em homenagem ao conhecido treino, e começou a investir no seu objetivo de abrir o próprio ginásio. Em dezembro de 2010, ela inaugurou o CrossFit Raleigh, na Carolina do Norte, com vários sócios. Um ano depois, Abbott ficou sozinha e rebatizou o box de CrossFit Invoke, com a máxima “Evoque o seu atleta interior” porque foi isso que o CrossFit fez por ela.

“Adoro levantar peso”, diz ela. “Uma das coisas mais legais sobre ser pequena é que realmente impressiona quando você levanta muito peso. Quando uma mulher de 72 quilos levanta 77 quilos, as pessoas se impressionam. Mas, quando uma mulher de 52 quilos faz isso, é ainda mais incrível”.

150715_ImagemInterna_ChristmasAbbott3

Depois de sete anos de carreira no CrossFit, Abbott ainda está quebrando seus próprios recordes; nesse momento, ela pode levantar 77 quilos em duas etapas. Também pode fazer o levantamento Terra de 115 quilos, o arranco com 65 quilos e o agachamento de arranco com 90 quilos. Ela adoraria voltar ao CrossFit Games como competidora — a equipe do CrossFit Raleigh terminou no 16º lugar geral nos Games de 2011 —, mas está focada em equilibrar seus objetivos no CrossFit com o sonho de se tornar a primeira mulher a “pular a mureta” como membro de uma equipe de box da NASCAR.

Quando, em janeiro de 2012, Abbott foi com um grupo de colegas do CrossFit à Charlotte, na Carolina do Norte, para o Pit Crew Challenge organizado por Ted Bullard, na época da Turner Motorsports, ela era uma antiga fã da NASCAR, mas nunca tinha trocado um pneu na sua vida. Naquele dia, eles brincaram de levantar os carros com os macacos e Abbott conseguiu desparafusar cinco porcas em 1,7 segundo — bem mais rápido do que qualquer um de seus colegas de CrossFit e não muito longe do padrão dos profissionais, que é de 1,3 segundo. Ela amou o som agudo da pistola de ar comprimido e soube na hora que aquilo era um brinquedo que ela queria em seu arsenal.

Bullard então convidou Abbott para treinar com o coach da Turner Motorsports, Shaun Peet, e ela foi uma aluna dedicada. Em fevereiro de 2013, ela assinou com a Michael Waltrip Racing e começou a treinar seis dias por semana. Teve a oportunidade de acompanhar as equipes de box dos pilotos Clint Bowyer e Mark Martin durante as corridas Sprint Cup Series, da NASCAR, e trabalhou no box da piloto Jennifer Jo Cobb, no Camping World Truck Series da Nascar.

A atenção que Abbott atraiu por ser uma linda mulher trabalhando nos boxes ofuscou até mesmo a atenção que ela recebeu como beldade do CrossFit. Bryant Gumbel a chamou de “Supermulher em miniatura” no programa Real Sports, do HBO. Ela foi retratada no Nightline, da ABC, na CNN, na ESPN e na Fox Sports, além das páginas das revistas Cosmopolitan e Inked. Tudo a ver, pois ela tem 14 tatuagens (por enquanto). O salgueiro-chorão da panturrilha, por exemplo, remete à sua infância na Virgínia. O clássico revólver na coxa comemora sua passagem pelo Iraque. A rosa dos ventos nas costelas a relembra de manter-se fiel a seu caminho. E, representando ela mesma, a deusa com a espada na mão em seu braço encarna a beleza e a força.

Em julho, Abbott, que tem 32 anos, decidiu se afastar um tempo do exaustivo calendário da NASCAR para se concentrar em gerenciar seu ginásio e talvez abrir um segundo box. Mas, apesar do aviso colocado em sua página do Facebook no final de outubro, anunciando sua saída da equipe Michael Waltrip Racing, ela na realidade continuou conversando com diversas equipes da NASCAR. “As coisas que mais me assustaram na vida foram as coisas que mudaram a minha vida”, diz ela. “O CrossFit é uma delas, e a NASCAR é a outra”.

Se antes, um acidente automobilístico deixou Abbott abalada, agora são os carros que a levam para casa.

Revista MyBOX

A MyBOX é uma revista brasileira com edições bimestrais especializada em conteúdo relacionado a exercícios funcionais, ginásticos e de força, além de treinamentos e aconselhamento nutricional por meio de reconhecidos profissionais da área. Com uma proposta colaborativa, pretendemos unir, engajar e dar voz à comunidade adepta da modalidade fitness em todo o país através da canalização e divulgação de informações e conhecimentos relevantes para a comunidade.

Você pode se interessar também por...