Superando deficiências através da força

por Kelly Crigger para The Box Magazine

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“Rejeite seu ressentimento e ele desaparecerá por si mesmo. “

A frase de Marcos Aurélio está gravada no antebraço de Jason Sturm, e nenhuma tatuagem poderia ser mais adequada. Depois de perder a perna esquerda logo abaixo do joelho num acidente durante o treinamento em Fort Drum, em Nova York, Sturm passou por todos os estágios da raiva e do luto até finalmente se render ao CrossFit e descobrir um novo propósito na vida. “Saí da recuperação para me tornar um atleta”, ele conta brincando, enquanto anota o WOD no onipresente quadro branco do box Walter Reed. A trajetória de Sturm para a recuperação pegou um atalho que o afastou da rotina de reabilitação prescrita pelo exército e o levou ao CrossFit, mas isso pavimentou o caminho para oferecer aos outros o que lhe foi dado: a oportunidade de ser mais do que a soma das partes, estejam essas partes presentes ou faltando.

O Centro Médico Militar Walter Reed em Bethesda, Maryland, é a maior instalação médica militar dos Estados Unidos, e foi planejada para reabilitar e recuperar efetivos militares que tenham sofrido ferimentos graves. Soldados que foram feridos em ação costuma desembarcar lá para receber tratamento e fazer reabilitação.

O box da CrossFit Walter Reed fica no Edifício 226A, na extremidade cheia de mata do centro médico, próximo do frenético anel rodoviário que circunda a capital, Washington, D.C. Trata-se de um espaço totalmente espartano que foi doado pela divisão de Força moral Bem-estar e Recreação do Exército e abastecido de equipamentos doados pela Crossfit HQ. Ele se parece mais com um clube do que com um box oficial. Não existe headcoach fixo, portanto os instrutores dos ginásios locais trabalham como voluntários em seu tempo livre uma vez por semana. Não existe uma rotina programada, apenas treinos três vezes por semana (Terça-feira, quinta-feira e sábado), e nenhum controle da evolução, a não ser os próprios alunos, que são um bando variado de guerreiros feridos e seus cuidadores. Conforme menos tropas são mobilizadas e como resultado da retirada das forças de combate do Iraque, o número de soldados amputados chegando ao Walter Reed tem (graças a Deus) diminuído. Ainda assim, o espaço permanece aberto para treinar um grupo mais abrangente de atletas. Na rotina diária, Sturm e os outros instrutores não sabem quem virá treinar, o que representa um desafio.

“Nós só temos três dias de treinos por semana, então não conseguimos focar em certos aspectos do CrossFit como o levantamento olímpico”, afirma Sturm. “Tudo o que ensinamos em outros ginásios de CrossFit numa dinâmica semanal sai do esquema aqui porque não temos tanto tempo com os alunos”.

Além do desafio do tempo limitado, há também membros limitados por que, como Sturm, nem todo mundo tem dois braços e duas pernas. Atualmente, grande parte do contingente militar tratado está se recuperando de amputações traumáticas. Por esta razão, Sturm separa os movimentos de levantamento olímpico dos de condicionamento metabólico.

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“Simplesmente não existe tempo suficiente para ensinar determinados movimentos a um aluno quando só estamos em contato alguns dias da semana, sem contar que eles abandonam os treinos quando a reabilitação acaba. Nós usamos muito a kettlebell porque ela permite ensinar movimentos sem ter que se preocupar com os movimentos na trajetória da barra. Podemos ensinar agachamento com barra na frente, agachamento de arranco, arranco, suspensão, push press e arremesso sem as dificuldades que surgem quando se usa a barra”, explica Sturm.

Pense nisso: a primeira que você tentou um arremesso, fez basicamente uma rotação ao contrário porque não sabia a técnica adequada envolvida. Mas é preciso multiplicar esse esforço por 10 quando estiver ensinando a um soldado que perdeu a perna ou o braço. Ensinar esse movimento com o kettlebell para um novato é bem menos complicado.

“As questões da trajetória da barra estão resolvidas porque eles entendem que não estão tentando arrancar esse troço do chão com os braços e acabam usando adequadamente as pernas”, explica Sturm. “Mas isso também elimina o movimento de soltar por baixo da barra. Para quem tem esses problemas, é bem mais fácil ensinar o movimento com a kettlebell do que com o halter”.

A técnica é muito importante para Sturm, que aposta no uso de pesos baixos e muitas repetições, além de bastante corrida. Uma típica semana de três treinos no box Walter Reed envolve um dia voltado para técnica, outro para força e o outro para condicionamento metabólico, ou alguma outra combinação dos três. Numa terça-feira normal, Sturm coloca a turma para fazer 15 minutos de supino com três séries de repetições seguidas por um condicionamento metabólico com balanços com kettlebell, bola na parede e barra com corridas no intervalo.

Nada é proibido, não importa quão grave seja a lesão. Adaptações são feitas quando necessárias, mas tudo é programável, mesmo que algumas pessoas não sejam capazes de realizar determinados movimentos. Por exemplo, não é factível esperar que um amputado mantenha qualquer tipo de equilíbrio durante um agachamento. Eles precisam reaprender os movimentos, o que é um desafio (do tipo bom de ter). “Isso força você a resolver essas novas situações”, explica Sturm. “Mesmo um duplo amputado abaixo dos joelhos pode aprender a fazer um arremesso a partir do solo, apenas sem movimentar o quadril”.

Sturm fala isso porque ele passou por isso — literalmente. Suas próprias experiências o inspiraram a trabalhar com outros amputados para ensinar as lições que aprendeu da maneira mais difícil. “Não havia muita coisa para os veteranos feridos quando eu me machuquei em 2002”, ele conta, lembrando que a terapia física fez com que ele reconquistasse a funcionalidade para o cotidiano. “Mas eu tinha perdido muito da força e capacidade atlética que tinha conquistado no exército”.

Ele voltou à academia normal, mas aquele estilo de treinamento não estava ajudando em seu condicionamento físico geral, uma importante faceta da vida de qualquer soldado. Apresentado ao CrossFit por um amigo, Sturm imediatamente pensou que não ia dar para fazer, mas conforme ficou mais saudável e forte, a academia normal não estava atendendo suas necessidade e ele não estava evoluindo. Por fim, ele cedeu e se inscreveu num box. “De cara eu gostei da sensação de leve pânico por estar no meio de um WOD e achando que o coração ia sair pela boca”, ele lembra.

Essa foi uma das razões pelas quais o CrossFit funciona tão bem com guerreiros lesionados. É um ambiente rígido no qual você levanta seu peso e vira motivo de piada se não conseguir, independentemente de quantos dedos dos pés ou das mãos estejam faltando. É exatamente o que pessoas desse tipo precisam: um desafio físico prático, vigoroso e confrontador que as deixe com a sensação de realização quando o treino termina.

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Superar uma grave lesão é tanto um desafio mental quanto um processo físico — conforme a tatuagem de Sturm sugere. O CrossFit é reconhecido como um exercício de elite por uma razão, e não há público melhor do que pessoas que escolheram uma vida de ação. Eles são uma raça diferente que trocará com prazer a terapia de grupo baseada em emoções e sentimentos pela oportunidade de provar que ainda podem chegar onde outros não conseguem. Guerreiros não reagem bem a afagos, senão não teriam se alistado nas forças armadas. Eles querem ser tratados como soldados: de maneira verdadeira e sem compaixão.

O sargento de primeira classe do exército Chris Carvalho estourou o cotovelo no Afeganistão e tem pouquíssima mobilidade com o braço esquerdo, então exercitar-se na barra e levantar muito peso não é prudente. Durante o treino de terça-feira, a instrutora Andrea Bates pede que Carvalho vá com calma nas flexões de braço se o cotovelo doer, mas não adianta, pois ele continua fazendo mais flexões. A tropa que existe dentro dele quer seguir em frente. O problema é que não importa o quanto sua mente deseje, o corpo precisa ser capaz na mesma proporção e ele faz o que pode, mesmo que não consiga atingir seu objetivo. Trata-se de um jogo em que perdas e ganhos se equivalem.

“Soldados querem ser motivados”, Bates afirma. “Eles podem não ter uma perna, mas eu vou exigir deles tanto quanto de um aluno que tenha as duas pernas e dizer ‘Eu sei que você pode levantar esse peso’, e eles vão levantar. Já vi pessoas sem pernas e braços e outras sem lesões óbvias que estão lutando com lesões cerebrais ou câncer. O exercício é importante porque ele as ajuda a entender que é possível fazer mais do que elas acham que podem”.

Bates tem uma perspectiva toda sua a respeito do programa. Ex-aluna de West Point, ela é formada em saúde pública pela UCLA e está fazendo um Ph. D. em administração de saúde enquanto trabalha em tempo integral e participa de competições de CrossFit. Na realidade, é provável que não exista uma candidata melhor para planejar os treinos para os guerreiros lesionados. “O trabalho com o core é ótimo para dar estabilidade e para dar equilíbrio na perna mecânica”, afirma. “O levantamento terra ajuda a mobilizar as pernas e fortalece o centro de gravidade, o que é complicado para alguém que está se acostumando com a perna mecânica. Vou começar com levantamentos terra e depois, quando eles estiverem confortáveis, partir para o arremesso e então para o movimento completo, que é levar a carga acima da cabeça”.

Os exercícios de levantamento de peso são a parte mais importante do programa, em parte porque os alunos precisam se acostumar com seu novo peso corporal. Eles podem ter sido desmobilizados com 100 quilos, mas voltaram aos 90 quilos porque perderam a perna acima do joelho. Leva mais tempo e esforço do que se imagina para alguém se acostumar a essa mudança radical no peso pessoal e aprender a levaa em conta o desequilíbrio que isso provoca. Para quem um dia conseguia fazer três subidas na argola, agora pode fazer sete porque tem menos peso para movimentar.

“Na prática, isso pode fazer bem ao ego”, afirma Bates, rindo. “Depois de um tempo, passa a ser natural sempre tentar ficar mais forte e mais rápido. As paralelas na argola são ótimas porque se você falhar, não está longe do chão e pode cair de pé, o que é melhor do que cair da barra ou da argola”.

O ex-fuzileiro Jake Hill perdeu a perna esquerda abaixo do joelho no Afeganistão em 2010 e depois sofreu um traumatismo craniano que deixou seu lado direito paralisado e o levou ao Walter Reed por 18 meses. “A fisioterapia é inútil”, diz Hill. “Não me ajudou em nada, e eu sabia que a única pessoa que podia me ajudar a melhorar era eu mesmo. Então, ouvi falar do CrossFit e fui conhecer, mas fiquei muito assustado na primeira vez. Percebi que não podia fazer o que os caras estavam fazendo, mas ao mesmo tempo eu queria fazer”.

O braço direito de Hill estava muito fraco e seu ombro se deslocava em qualquer movimento, mas com a ajuda do CrossFit e do trabalho com Sturm e Bates, ele recuperou mais do que seria possível se seguisse apenas a recomendação da fisioterapia do exército. O CF Walter Reed o forçou a usar o braço direito e focou nos pesos mais leves e nas repetições, o que se mostrou fundamental para sua recuperação. Levantamentos terra e agachamentos fortaleceram a perna remanescente, mas houve um aspecto que recuperou seu corpo e a mente por inteiro mais do que qualquer outra coisa.

“Eu gosto de vencer”, diz Hill. “O CrossFit tem um enorme aspecto competitivo e ser o primeiro sempre foi uma característica minha. Quando estamos treinando, competimos para ser o primeiro e isso é realmente estimulante. A pior coisa é quando as pessoas me saúdam quando chego por último. Isso me chateia”.

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Sturm concorda que a camaradagem é essencial. “Esses caras precisam se manter ativos e a maior parte das pessoas não entende isso”, ele explica. “Quando eles veem alguém que está disposto a treinar com eles e a fazer as coisas que eles faziam antes, surge uma excitação e eles querem voltar. A atitude deles se aproxima do clima ‘Isso é divertido. Não estou sentando numa sala de fisioterapia me exercitando numa bicicleta manual. Estou fazendo coisas que eu não sabia que poderia fazer novamente’”.

As forças armadas são formadas por fêmeas e machos tipo alfa, acostumados a ultrapassarem os próprios limites visando se fortalecerem. Esses atletas viveram durante muito tempo num alto nível de preparação e se sentem estagnados sem isso. Eles precisam de um penhasco para escalar e de colegas para tomar conta durante a escalada. Na verdade, eles precisam se recuperar tanto do ponto de vista mental quanto físico, daí a necessidade de sentir que estão motivando alguém e sendo motivados. E como todo mundo no CrossFit Walter Reed concorda, um simples treino tradicional não proporciona isso.

Você não consegue nada disso numa academia normal. É por isso que o CrossFit tem sido mais terapêutico para esses guerreiros feridos do que qualquer outra forma de atividade física. O CrossFit destrava os limites da lesão e permite que esses homens e mulheres sejam mais do que achavam que podiam ser e lhes oferece um ambiente onde podem progredir e no qual permanece a camaradagem de uma unidade militar. O CrossFit, tal como os militares, é uma comunidade na qual você cuida do seu “irmão” e vice-versa. O hospital no Centro Médico Militar Walter Reed pode tratar o ferimento, mas o CrossFit Walter Reed elimina o ressentimento.

Revista MyBOX

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