A voz da experiência, com Lupa.

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À primeira vista, quem vê o atleta Luiz Renato Oliveira treinando no box CrossFit Sampa não imagina que ele esconde um lado sério e engravatado como juiz. Aos 42 anos, Lupa, como é mais conhecido entre os amigos, dá expediente todo dia na Vara Previdenciária da 1ª subseção judiciária do Estado de São Paulo, mas isso não o impede de se manter competitivo no circuito de CrossFit. “Sempre pratiquei esportes como atletismo, caratê e jiu-jitsu, mas a carreira acabou fazendo com que os esportes ficassem em segundo plano”, conta, lembrando que já era faixa preta de full-contact aos 17 anos e que só largou as competições de jiu-jitsu, pois machucou o ombro e precisou operar.

Mesmo com a carreira no judiciário a todo vapor – foi procurador do Estado de São Paulo e agora é juiz federal – ele ainda encontrou tempo para fazer três pós-graduações, atuar como professor de cursos para concursos públicos e se dedicar à carreira de atleta. “Mesmo quando não estava competindo, eu nunca fiquei parado. Sempre mantive uma rotina de treinos”, conta, lembrando que conheceu a metodologia do CrossFit em 2009 e, desde então, “não largou mais”.

Perseverança de atleta

Na época em que voltou a competir, Lupa conseguiu manter a rotina insana de juiz, professor, aluno (de italiano e francês, e ainda por cima fazia mestrado) e sócio de dois boxes (CrossFit Sampa e CrossFit Pinheiros). Além de perseguir o título de atleta mais bem condicionado do Brasil, Lupa conseguiu nesse meio tempo alguns bons resultados em outras categorias: campeão na categoria peso absoluto do Campeonato de LPO 3-2-1 de 2013, terceiro lugar no Campeonato Paulista de Powerlifting de 2014 e campeão brasileiro de levantamento terra na categoria até 74 kg, levantando 232,5 kg em 2015.

Em 2016, Lupa decidiu deixar de lado a vida acadêmica para dedicar mais tempo à família. “Repensei minha vida e vi que as coisas não estavam bem equilibradas. Larguei tudo o que não era prioridade e não me arrependo, pois agora consigo treinar e ter uma qualidade de vida melhor”, afirma.

O caminho que Lupa vem trilhando é o do fitness competitivo e, entre altos e baixos, segue firme e forte com uma rotina semanal de cinco dias de treino, um dia de descanso ativo e um de descanso total. Quem o guia nessa jornada são os coaches Luiz Melo, do box CrossFit BH e Thiago Heck, da CrossFit Sampa.

Toda semana, o coach Melo envia uma planilha de treinos para a semana, Lupa acrescenta os valores e observações sobre suas condições físicas do dia e o coach Heck o acompanha ao vivo para avaliar os padrões de movimentos. “Os dois me conhecem há muito tempo, já participaram de várias competições comigo e estão entre os primeiros coaches do Brasil”, afirma.

Para Lupa, essa troca de informações é importante para que os treinos sejam programados de acordo com as suas condições físicas, até porque ele já passou por três cirurgias. “As cirurgias foram mudando o meu ritmo e o meu corpo. Comecei a ter algumas dificuldades que não tinha antes e precisei adaptar os exercícios e as cargas nos períodos de recuperação”, lembra.

No último Torneio CrossFit Brasil (de 2015), Lupa chamou a atenção ao participar da primeira prova da competição nadando com apenas um braço. Isso aconteceu porque fazia apenas duas semanas que ele havia passado por uma cirurgia no braço. Ele já estava conformado em não participar da competição, mesmo tendo passado pelas seletivas e esta teria sido a primeira vez que não estaria na arena do torneio brasileiro. Porém, decidiu se arriscar pelo menos na prova da natação.

“Como meu problema era apenas em um dos braços, comecei a pesquisar técnicas de nado paralímpico e vi que era possível nadar com um braço só. Procurei uma técnica de atletas paralímpicos para aprender o movimento e tive uma semana para me adaptar”, disse. No fim, Lupa chegou na frente de quase metade dos competidores e garantiu a participação em mais uma edição do Torneio CrossFit Brasil.

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Desvios de percurso

Único atleta que participou de todas as edições do Torneio que seleciona os atletas mais bem condicionados do país ficou em terceiro lugar em 2010, foi campeão em 2011 e vice em 2012. Além disso, foi classificado para a etapa regional do CrossFit Games em três anos seguidos (2011, 2012 e 2013). Em 2014, uma lesão no ombro o impediu de seguir na etapa classificatória do Open, mas mesmo assim, continuou participando de outras competições. No mesmo ano, por um descuido, acabou machucando o joelho, pois fez uma sequência de movimentos de arremesso com o posicionamento dos joelhos errado e rompeu o ligamento. Ainda em fase de recuperação, mas com autorização médica, Lupa decidiu participar da final do Torneio CrossFit Brasil. “O problema é que eu já estava cansado e no último dia, senti que estava forçando meu corpo além da conta”, recorda.

Somando experiências, o paulistano vê sua trajetória no mundo fitness como um caminho de aprendizados. “Antes, eu queria sempre treinar mais, mas aprendi que nem sempre mais é melhor. É importante saber ouvir o próprio corpo, saber o próprio ritmo”, aconselha.

Mesmo sofrendo lesões e tendo que parar por alguns meses até se recuperar, o juiz e atleta de fitness continua focado nas competições e seu atual objetivo é competir nos Games, na categoria master (40-44 anos). Desde 2014, quando estaria apto a competir na categoria master, esses períodos de recuperação coincidiram com o Open, por isso, neste ano de 2016 ele diz que está “com os pés no chão, mas focado em conseguir me classificar entre os 200 masters do mundo para entrar numa outra seletiva em que apenas os 20 melhores chegam à final mundial”.

Assista à entrevista completa:

“Sinto-me bem nos quesitos força e resistência, mas tenho consciência de que as cirurgias vão me minando e que passei a ter limitações, pois meus ombros e joelhos já não são mais os mesmos”, reconhece Lupa.

Para garantir um bom desempenho no Open, ele chegou a tirar férias do trabalho para treinar mais e ter mais horas de descanso, já que o período de recuperação é fundamental para o desempenho nas provas.
Olhando em retrospecto para suas experiências nos esportes, Lupa comenta que seu processo de aprendizagem foi marcado por erros e acertos e acima de tudo pela insistência. Agora, ele aprendeu a importância de manter um tempo de descanso e aceitou o fato de que o seu tempo de recuperação é diferente do que costumava ser alguns anos atrás. “Sempre fui o tipo de atleta que faz mais do que pode, mas a idade vai ensinando que não adianta insistir em algo que não está funcionando, senão você acaba se desgastando, não treina bem e no dia seguinte fica muito cansado”, observa.

Tanta dedicação ao fitness mostra um pouco de sua personalidade de pai, juiz e atleta: “É a variedade de movimentos e desafios que mais me agrada no CrossFit. Procuro ser um atleta mais equilibrado e quanto mais exercícios diferentes, melhor”, declara.

Revista MyBOX

A MyBOX é uma revista brasileira com edições bimestrais especializada em conteúdo relacionado a exercícios funcionais, ginásticos e de força, além de treinamentos e aconselhamento nutricional por meio de reconhecidos profissionais da área. Com uma proposta colaborativa, pretendemos unir, engajar e dar voz à comunidade adepta da modalidade fitness em todo o país através da canalização e divulgação de informações e conhecimentos relevantes para a comunidade.

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